sábado, 9 de fevereiro de 2008

Farsas íntimas


Eu te fortaleço. Cada vez mais. Deixo que se alimente lentamente da minha euforia. Eu estou ali, e te sou devota. Nenhuma daquelas palavras e nenhum daqueles gestos, mesmo aqueles olhares e ruídos, me passam desapercebidos. Todo meu dia, de repente, se resume naqueles minutos. Seus elogios me soam mal aos ouvidos. É quando me pego, mais uma vez, em um roteiro que não foi escrito pra mim. Sei que não sou quem está em cena quando as pálpebras se fecham. Ainda assim, seu olhar demonstra que te sentes vencedor. Mostra-me o quanto me domina.
Por mais uma vez, entrei no seu jogo e lavei sua alma. Você despejou em mim o teor das suas frustrações. Despejou junto com seu calor, em cada gota de suor. Como parasitas, elas tomaram conta do meu corpo. Os sintomas se fizeram presentes, pude notar o nó na garganta. Me senti violada e vazia. Senti também alguma alteração espacial, não sei bem, mas estava tão pequena que era difícil me fazer notar. Me olhava no espelho e via surgir um sorriso estranhamente irônico. Era você, novamente, pra não me deixar esquecer da covardia, pra me lembrar que não acreditou nem por um momento, nas mentiras que tentei contar. Sinceros mesmo foram aqueles sorrisos que insistiam em entregar o quanto não consigo ser indiferente à sua presença. Eu te amo. Você já deveria saber, eu te disse aquela vez. Mas já nem sei mais... Sabe como sou quando bebo, talvez não seja bem assim. É que por algum motivo, agora sinto a diferença. Meu corpo vai em sua direção, enquanto a alma já anda seguindo outros rumos. Entendeu que pode ir mais além. Não sei dizer nem quando nem onde, finalmente deixei de querer entorpecer a realidade te usando como ópio. Aconteceu simplesmente que hoje, por mais uma vez, me vi diante do espelho. E percebi. Você já não estava mais ali, dentro dos meus olhos.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Cinza


No alto, vibra com força nesta manhã
Insiste em entrar pelas frestas da janela
É como um convite, mas não soa assim
Aquela luz sobre o rosto...
Na escuridão é que se percebe além do óbvio. É onde se pode buscar a chama que há muito se perdeu destes olhos
Alma colorida, visões turvas em preto e branco
Espera pelo dia em que irá mergulhar com segurança no que, de fato, lhe pertence. Certamente, aquilo ainda não é tudo.
Será?
E a noite, enfim, chegou. Com ela, nada de estrelas
São ventos, raios e trovões. Ao redor, impaciência
Onde buscar luz agora?

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Espiral


Lembre-se: Não há como fugir. A areia do tempo não cessa.
Cai sobre os fatos como uma ampulheta incansável, sempre girando.
E os ponteiros retrocedem. Trazem de volta sequências que já vi e vivi, disfarçadas em novos rostos, novos anos.
Querem me fazer ter esperança, enquanto sorriem o sorriso sádico da eternidade.
Mas é possível escolher tudo aquilo que há de se encontrar para sempre. Todos os movimentos seguem em sincronia com os movimentos que os geraram.
A única opção é viver o cárcere da forma mais dinâmica que lhe for aparentemente possível
E na próxima volta, a verdade já não parecerá tão implacável
O universo é espiral.


"Eu estou estendendo minhas mãos para o aleatório ou o que quer que me desnorteie.
E seguindo nosso desejo e nosso vento nós podemos chegar aonde ninguém jamais esteve.
Nós vamos montar a espiral e podemos ir aonde ninguém jamais esteve.
Espirale. Continue indo"
- Lateralus/TOOL