
Eu te fortaleço. Cada vez mais. Deixo que se alimente lentamente da minha euforia. Eu estou ali, e te sou devota. Nenhuma daquelas palavras e nenhum daqueles gestos, mesmo aqueles olhares e ruídos, me passam desapercebidos. Todo meu dia, de repente, se resume naqueles minutos. Seus elogios me soam mal aos ouvidos. É quando me pego, mais uma vez, em um roteiro que não foi escrito pra mim. Sei que não sou quem está em cena quando as pálpebras se fecham. Ainda assim, seu olhar demonstra que te sentes vencedor. Mostra-me o quanto me domina.
Por mais uma vez, entrei no seu jogo e lavei sua alma. Você despejou em mim o teor das suas frustrações. Despejou junto com seu calor, em cada gota de suor. Como parasitas, elas tomaram conta do meu corpo. Os sintomas se fizeram presentes, pude notar o nó na garganta. Me senti violada e vazia. Senti também alguma alteração espacial, não sei bem, mas estava tão pequena que era difícil me fazer notar. Me olhava no espelho e via surgir um sorriso estranhamente irônico. Era você, novamente, pra não me deixar esquecer da covardia, pra me lembrar que não acreditou nem por um momento, nas mentiras que tentei contar. Sinceros mesmo foram aqueles sorrisos que insistiam em entregar o quanto não consigo ser indiferente à sua presença. Eu te amo. Você já deveria saber, eu te disse aquela vez. Mas já nem sei mais... Sabe como sou quando bebo, talvez não seja bem assim. É que por algum motivo, agora sinto a diferença. Meu corpo vai em sua direção, enquanto a alma já anda seguindo outros rumos. Entendeu que pode ir mais além. Não sei dizer nem quando nem onde, finalmente deixei de querer entorpecer a realidade te usando como ópio. Aconteceu simplesmente que hoje, por mais uma vez, me vi diante do espelho. E percebi. Você já não estava mais ali, dentro dos meus olhos.


